sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dois tipos de vendedores de carros usados

Como tudo aqui no Brasil existem dois tipos basicos de vendedores de carro usado: aqueles que usam o carro até o "osso". Esse tipo de vendedor deixa de fazer manutenção um ano antes de vender o carro. Deixa os pneus carecas, não troca amortecedor, não faz limpeza do sistema de arrefecimento, as vezes não troca nem o oleo e muito menos os filtros de ar, combustivel e óleo. No entanto existem pessoas que cuidam bem do carro, que pode ser o segundo carro da familia. Esses carros são pouco rodados e tem manutenção em dia. Em geral são vendidos porque estão ficando velhos e o seguro está ficando proporcionalmente mais caro. São carros de um unico dono e ele pode ser perguntado de tudo sobre o carro. Eu já fui vitima do vendedor do primeiro tipo e comprei um osso. Então aprendi e somente comprei carros usados de conhecidos (duas vezes) até que passei apenas a comprar carros novos. Para comprar carros usados, portanto, é necessário ser "esperto" e se possível contar com a ajuda de amigos.

Universidade e oportunidade

Depende da universidade e do curso. No entanto, entrar em uma grande universidade traz uma oportunidade intrinseca, que é a de aumentar as ligações neurais do individuo que assim o desejar. O convivio com pessoas diferentes, dos diferentes cursos, classes socias e ideologias, pode fazer o individuo "abrir sua cabeça" para outras realidades que a dele proprio. As grandes universidades tem ofertas de cursos extra-curriculares, opções esportivas e culturais. Pena que nem todos aproveitem. Muitos recusam-se a dedicar-se a qualquer coisa que não seja inerente a sua escolha profissional.

Casamento e oportunidade

Tradicionalmente o casamento é uma oportunidade somente para as mulheres. Muitas pensam inclusive que o casamento é um emprego vitalício e bem remunerado. No entanto, nos casos em que a familia da mulher é rica, poderosa e bem relacionada, pode acontecer de o marido ser beneficiado. Já vi casos em que uma familia tinha apenas mulheres como filhos. Essas mulheres não foram educadas para assumir os negocios e então os genros ideiais são uma necessidade. A alternativa é vender os negócios (caso consigam) e deixar uma patrimonio financeiro apenas. Fazer a partilha em vida, ou seja, passar a herança com a mão quente. Trata-se aqui mais uma vez de capital social. No caso capital de terceiros.

Amigos e oportunidades

Meus amigos são de infancia. Nunca consegui fazer amizades com colegas de trabalho, porque as condições de trabalho sempre foram de muita competição e luta pela sobrevivencia. Conheço amigos que foram beneficiados pelos seus antigos colegas de trabalho. No meu caso foi mais um salve-se quem puder, pois as empresas em que trabalhei sofreram downsizing muito grande. Meus amigos de infancia seguiram um caminho parecido com o meu, pois são engenheiros. Apenas um é empresario. Mesmo assim sua empresa não cresceu o suficiente para que ele me pudesse me oferecer um cargo de gestão. Ainda que ele pudesse me oferecer, haveria tambem o problema de convencer o irmão dele. Resumindo: as oportunidades de emprego criadas pelos meus amigos são, via de regra, para empregadas domésticas ou empregados de baixo salario (no caso do meu amigo empresário).

Familia e oportunidades

Um dos maiores grupos empresariais do Brasil, o Itau Unibanco, começou como um negócio de familia pequeno, que somente cresceu quando um dos donos deu uma chance para um sobrinho que estava se formando em engenharia na Escola Politecnica da USP. O nome desse sobrinho: Olavo Setubal. Nossa familia é o primeiro e, em geral, o mais fiel e confiavel depositario de capital social e fonte do nosso "networking" natural. Qual empresario não dará emprego aos seus filhos se for necessário ? Afinal, sem trabalhar na empresa ele já tem de sustentá-los mesmo . . . Existem familias e familias. Na minha não havia grandes oportunidades a serem exploradas. Os tios maternos que fundaram negocios não passaram da sua propria geração, fazendo valer o velho ditado brasileiro: pai rico, filho nobre e neto pobre. Do lado paterno o unico tio foi um simples operario que mal conseguia sobreviver, quanto mais oferecer alguma oportunidade para um sobrinho. Na minha casa meu pai foi um executivo da iniciativa privada, com poucos contatos e nenhuma preocupação em ser meu mentor profissional. Ele ajudou muito minha irmã, nos momentos cruciais da carreira dela. Minha irmã teve o "pull" (empurrão) e esse foi dado pelo meu pai.

Oportunidades

As pessoas querem oportunidades (nem todas é verdade). E a oportunidade tem de aparecer na hora certa, nem muito antes e nem muito depois. A isso as pessoas chamam de "timing", ou seja, do tempo certo. Para os jovens que se formam no ensino superior a oportunidade é crítica. Caso ela não apareça, todo o seu esforço pode ser perdido. No Brasil, durante decadas as boas oportunidade foram poucas. E pior ainda, com o tempo, o que era bom ficou ruim e o que era ruim ficou bom. Foi assim com o emprego privado e o publico. Somente o crescimento economico sustentado oferece oportunidades fartas e numerosas para muitos. Isso porque em cenários de pouco crescimento as boas oportunidades acabam nas mãos de apadrinhados de todo tipo. Quando há forte crescimento, as vagas são mais numerosas que os apadrinhados e então aparecem oportunidades para os demais. É aqui que aparece o capital social: em época de crescimento os mais desafortunados conseguem progressos. Como exemplo disso podemos citar as viagens de avião da classe C. No Brasil, homens, brancos, heterosexuais, com nivel superior ou acima são a classe (teoricamente) dominante. Em termos sociais são eles que tem o maior capital, acesso aos maiores salarios e retornos possíveis.

Capital social e oportunidades

As pessoas com capital social são as mais bem sucedidas. O capital pode ser etnia, origem, posição da familia, cor, local de nascimento. Uma vez adquirido o capital social, a sua rede (networking), o aparecimento de um "mentor" simpatico a sua pessoa ou a inspiração por um papel (por exemplo, a carreira de determinada pessoa famosa, tornada conhecida através de sua biografia) pode fazer toda a diferença. Em outras palavras, ser uma pessoa dotada de atributos como inteligencia, carisma, diligencia, perseverança, etc. pode não ser suficiente para o sucesso. São essas as primeiras impressões que se depreendem do livro "Pull". Ou seja, o "self made man" da propaganda americana é muito mais uma falácia que uma realidade. Isso nos Estados Unidos, que são a maior nação do mundo e em muitos aspectos a mais avançada. Imagine então em países mais atrasados e com menos oportunidades.